Silêncio em Taizé

Em Outubro de 2016, meti-me sozinho num autocarro e fui para a Galiza, onde fiquei durante um mês. Mal começou Novembro, da Galiza fui para a Provença e Camargue, depois para Lyon e, por fim, para Taizé. Toda a viagem foi um percurso iniciático para mim: desde o resgate que fiz na Galiza da memória ancestral desta nossa faixa atlântica; desde a visita a Saintes-Maries-de-la-Mer, lugar onde, segundo a lenda, aportaram Maria Madalena, Maria Jacobé, Maria Salomé e Santa Sara Kali, a Negra; à semana que passei em Taizé, num retiro de silêncio. E o meu testemunho, hoje, é precisamente sobre Taizé. Estive quase dois anos para escrever este texto. Não por preguiça, por diversas vezes tentei fazê-lo, mas testemunhar sobre o silêncio que vivi em Taizé parecia esvaziar-me de toda a experiência, e por isso resolvi esperar. Até que o dia chegou.

Taizé é uma comunidade ecuménica cristã no coração da Borgonha, em França, com início em 1940. Foi fundada pelo Irmão Roger, suíço, que deixou a sua casa para acolher refugiados durante a II Guerra Mundial, à semelhança do que fizera a avó durante a I Guerra. Com a ajuda de uma das irmãs, Geneviève, acolheram pessoas fugidas da guerra até 1942, entre as quais judeus e agnósticos, mas acabaram por ser denunciados e tiveram de fugir. Regressaram em 1944, dando continuidade à comunidade que, hoje, ainda vive e cresce.

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Capela da Comunidade de Taizé

Taizé é acolhimento. A comunidade acolhe-nos à chegada, conforta-nos, alimenta-nos e não nos faz muitas perguntas. Respeita o nosso silêncio da mesma forma que recebe as nossas partilhas. Ainda hoje, além dos milhares de pessoas que acolhe todos os anos, essencialmente jovens vindos de todos os continentes, a comunidade não se distanciou da sua génese e continua a dar abrigo a refugiados: actualmente, a comunidade de refugiados é maioritariamente muçulmana, pelas razões que todos conhecemos.

Antes de 2016, nunca tinha ido a Taizé. Escutava histórias da comunidade desde os 8 anos, de pessoas que lá iam e voltavam com brilho nos olhos, inspiradas, com vontade de mudar o mundo, e oportunidades para eu ir também não faltaram, mas sempre pensei “não preciso de ir a Taizé para fazer ou sentir isso”. E, de facto, não precisava de ter ido. Até ao dia em que senti uma espécie de chamado interior, uma voz a dizer-me, e depois um sonho, “vai para o Norte”. E eu fui. Subi até à Galiza e continuei, até chegar a Taizé.

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Vitral representando a Anunciação, em Taizé

No dia em que cheguei, não tive dúvidas do que me levava até ali: a possibilidade de passar uma semana completamente em silêncio. Precisava de espaço para encontrar respostas para as muitas perguntas que tinha dentro de mim, precisava de me distanciar da vida quotidiana para a entender melhor, precisava de me distanciar do mundo que me desencantava e, mais importante, precisava de me distanciar das palavras, da fala, essencialmente das palavras dos outros, da cacofonia, para poder escutar. Escutar a natureza, escutar a vida, escutar-me a mim. Quantas vezes andamos a fazer coisas que, na realidade, não são as coisas que queremos efectivamente fazer, mas sim o que esperam de nós, o que exigem de nós?

Em Taizé, a “casa do silêncio”, como lhe chamo, fica mesmo à entrada da comunidade. Comigo ficaram mais sete rapazes, originários dos EUA, Alemanha, Sérvia, Coreia do Sul e Lituânia. A cada um de nós foi atribuído um quarto individual, ambiente propício ao recolhimento e à meditação. Partilhámos algumas tarefas, mantendo o equilíbrio da casa: preparar a mesa para as refeições, ir buscar a comida à cozinha e transportá-la, lavar a loiça, limpar as divisões comuns, escutar as reflexões diárias de um Irmão. Sempre sem falar, sempre em silêncio. Isto dentro da casa. Fora da casa, participava nas 3 orações diárias, partilhadas com todas as pessoas que estavam na comunidade, com mantras e cânticos que despoletam estados contemplativos profundos (com a particularidade de estarem escritos em todas as línguas do mundo), e caminhava pela região, atravessando bosques e florestas, enfrentando chuva e vento (era Outono e estava muito frio), sentindo o medo da noite a aproximar-se e a solidão dos caminhos, vibrando com a alegria das águas dos rios que encontrei, descobrindo povoações que remontam aos primórdios da Europa medieval, igrejas, castelos, prados e gado a pastar, sempre seguindo o mapa que os Irmãos partilharam connosco na casa. Sempre em silêncio. Sozinho.

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Floresta perto de Taizé

Caminhar foi conselho dos Irmãos para viver a semana em silêncio. Não só porque caminhar, por si, serve como método de reflexão, mas porque, ao caminhar, teria a oportunidade de contemplar a beleza natural da Borgonha, vendo-a através de uma perspectiva interior. A natureza tem um efeito curativo, os Irmãos sabem-no. Nunca esquecerei a emoção que senti quando entrei na floresta mais densa em que já estive, com quilómetros e quilómetros de carvalhos a estenderem-se pela terra, abrindo-se diante de mim como uma catedral gótica, imponente, sublime, silenciosa. Senti-a respirar, senti o fluxo da seiva que percorria o interior de cada árvore, senti a vida que habitava aquele lugar, o Grande Espírito. E saí de lá renovado, limpo.

Quando fui para Taizé, sentia que tinha perdido a minha voz, que me distanciara dela. Na realidade, em silêncio, descobri em Taizé que, afinal, o que eu sentia era medo de a usar. Quando deixei a comunidade, lembro-me de pensar que, afinal, não encontrara respostas para as perguntas que levara, mas que não ter respostas já não me causava ansiedade ou medo. Regressei com uma confiança renovada na vida, em paz. E por toda a experiência que vivi, por tudo o que vi acontecer na comunidade, escrevi no diário que me acompanhou durante toda a viagem que, por estar em Taizé, “renovei a minha esperança na humanidade”. Porque ali vi que é possível pessoas diferentes de todo o mundo estarem unidas com um sentido comunitário, orientadas para a paz. E isso fortaleceu-me, levando a que o meu silêncio tenha sido alimento para a minha voz. Para a minha alma.

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