Memórias de Istanbul

Istanbul, Dezembro de 2016. Sou convidado do International Young Poets Meeting e estou a representar Portugal. Somos vários poetas, com menos de 30 anos, maioritariamente europeus. Mas também os há vindos da Índia, da Jordânia, do Iraque.  Por sermos jovens, perguntam-nos sobre o que andamos a fazer, quais os novos movimentos, os olhares. Sempre há curiosidade sobre o que é novo… Querem saber do futuro. Eu falo-lhes das coisas antigas, do Atlântico, da minha terra de origem moçárabe, usando a língua dos meus poemas, língua que a poeta Ana Golejshka, da Macedónia, me disse soar como o Oceano. Sim, é uma língua oceânica, mas também é a fala das serpentes, de quem sssabe dosss ventosss e dasss águasss. Mas isso ela não sabia. Poucos sabem.

Lembro os poemas de Mirza Okic, da Bósnia-Herzegovina, palavras carregando a guerra, o sangue e a morte, fantasmas desta Europa, que teimam em assombrar-nos. No encontro gravámos mensagens pela libertação de Aleppo, na Síria. Na época, a guerra ocupava todas as agendas do mundo. Mas as agendas mudam… Há dias li sobre a “nova Turquia” de Erdogan e como as liberdades individuais continuam a ser perseguidas. Também li sobre a Rússia e os EUA. Também vi notícias do mundial e das selfies do actual presidente da República. E de um novo reality show que vai estrear. Há dias em que só me apetece fazer zapping ao mundo. Tenho de arranjar um comando.

Às vezes escuto a canção “The Women of Teheran”, dos Light in Babylon, e revivo o dia em que a vi ser interpretada por Michal Elia Kamal, cantora de ascendência iraniana e vocalista da banda, que partilhou, no encontro em Istanbul, que actuava pelo mundo com o sonho de, um dia, poder cantar ao lado de todas as mulheres do Irão, proibidas de cantar em público. Na minha terra as mulheres cantam na rua, como os pássaros, e não sabem que existem lugares onde não se pode cantar. Abençoada é a inocência no mundo.

Quando me perguntam sobre o futuro, regresso a Istanbul, àquele palco em que falei de onde vim, do Tejo e do Touro, em que falei dos mitos e da magia, em que falei do Amor e da Terra soberana. Apesar de ainda ver as ruínas que cantei nos meus poemas, apesar dos escombros e do silêncio, as águas voltam a correr, e o que era pó, cinza e memória tornou-se substracto, alimento. É no meu coração que guardo a esperança. E essa sabe que o que há de mais puro na condição humana prevalece sobre todos os sistemas de domínio.

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